De Volta ao mapa da fome
Por Alexandre José Cartaxo da Costa
Quando o médico e cientista político pernambucano Josué de Castro (1908–1973) publicou A Geografia da Fome, no ano de 1946, uma obra que viria se tornar uma referência na análise da fome no Brasil, jamais imaginou os efeitos e os impactos devastadores de uma pandemia num país que por anos a fio já era detentor de altíssimos e vergonhosos índices famintos em sua população.
O multifacetado e esquecido, o também nutrólogo e político, Josué Apolônio de Castro, não somente se tornou um especialista na fome em países subdesenvolvidos, mas em todo o mundo. Ao publicar, em 1952, A Geopolítica da Fome, consagrou-se como uma das maiores autoridades no mundo no combate a fome, sendo catapultando à presidência do Conselho Executivo da FAO–Organização das Nações Unidas, para Alimentação e Agricultura em Genebra.
Na verdade, o ensaio do recifense, Josué de Castro, transformou-se em um verdadeiro tratado sobre as origens socioeconômicas da fome onde ele denunciava para o mundo de forma contundente as argumentações simplistas e conformistas que tendem a naturalizar a tragédia da fome.
Com o caos pandêmico do coronavírus recrudescendo no país, ultrapassando a tétrica marca de mais de 4000 mil mortes por dia, o quadro de segurança alimentar foi aguçado chegando a níveis críticos. Segundo a REDE PENSSAN–Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, em 2020, a fome voltou a grassar de forma desenfreada batendo na porta dos domicílios de 55% dos brasileiros, onde 116,8 milhões de pessoas convivem com algum grau de insegurança alimentar e 19 milhões (9% da população) estão literalmente passando fome. Uma tragédia alimentar.
Pela primeira vez em 17 anos percorremos o caminho inverso rumo ao Mapa da Fome (Indicador social da ONU que indica quais os países nos quais mais de 5% de sua população ingere menos calorias do que o necessário). Esta terrível previsão de voltarmos a ser inseridos no Mapa da Fome, independentemente do início da pandemia em 2020, foi feita pela FAO em 2019 quando já apresentávamos baixíssimos indicadores de segurança alimentar.
Enquanto isso, hoje, os famélicos e esquálidos brasileiros acossados pelo atraso na liberação do auxílio emergencial, pelo desemprego e pela alta dos alimentos, já são vistos em hordas perambulando pelas ruas, praças e logradouros das cidades num quadro perturbador, fielmente retratado, há 75anos, na magnífica obra de Josué de Castro.
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